ARISTÉLIO ANDRADE
Aristélio Travassos de Andrade nasceu em 18 de março de 1934, na cidade de Timbaúba, Estado de Pernambuco, de onde seus pais saíram, para morar no Rio de Janeiro, quando tinha 3 anos de idade. Estudou no Instituto Teológico Adventista e fez contabilidade trabalhando de dia na Casa Turuna, na Avenida Passos.
Quando se formou, ficou doente dos pulmões e foi morar em São José dos Campos. Um ano depois, com a doença controlada, fez concurso para o Centro Técnico de Aeronáutica. Em 1952, ingressou no Partido Comunista Brasileiro, do qual nunca se afastou.
Trabalhou no CTA até final de 1956, quando voltou ao Rio para trabalhar no Tribunal de Contas da União. Nesta altura da vida, já estava namorando Marly, companheira admirável que lhe acompanhou até o fim da vida e com quem teve dois filhos (Sylas e Alexandre). Foi quando se iniciou a construção da refinaria Duque de Caxias, e o Partido lhe deu como tarefa fazer o concurso para a Petrobras. Ingressou na empresa em 1958. Na Reduc, foi fundador de um amplo movimento político, em defesa dos princípios que nortearam a fundação da Petrobras, com destaque para a luta em defesa do monópolio estatal do Petróleo, o Movimento 2004 (número da lei que criou a Petrobras).
O Sindicato da Reduc esteve presente em todos os grandes momentos da vida nacional: desde a greve dos marinheiros, a assembleia dos sargentos e o comício na Central do Brasil. Por isso mesmo foi violentamente perseguido em 1964. Nenhuma unidade da Petrobras teve o número de cassados que teve a refinaria, e o número de demitidos passou de 300. Tal era a fama do Sindicato e dos comunistas da refinaria, que, nas palavras de Aristélio, “foi criado um campo de concentração para nós”. Muitos foram torturados. Todos perderam seus empregos. Mesmo cassados, refundaram o Movimento 2004, que deu origem à Comissão de Anistiados da Petrobras, que até hoje luta pelos direitos destes trabalhadores.
Em 1964, Aristélio ficou preso no DOPS e, depois, no Presídio Ferreira Viana, na famosa Rua Frei Caneca. Não conseguia mais emprego e acabou virando jornalista, transformando-se num dos mais competentes e respeitados profissionais da área, sempre lembrado e admirado por antigos colegas e pelos leitores, quando se tornou colunista. Trabalhou no Jornal dos Sports, no Correio da Manhã, na sucursal do Estadão, da Folha de São Paulo e em O Globo. Após várias batidas policiais, resolveu ir para São Paulo trabalhar na Editora Abril. Trabalhou na enciclopédia Conhecer, na revista Realidade e fundou a revista Placar com Maurício Azêdo. Voltou ao Rio como chefe da redação do Placar e, quando foi demitido, com o dinheiro da indenização, comprou um chalé em Mury, em Nova Friburgo.
Foi trabalhar na TV Manchete e, dois anos depois, regressava à Petrobras, dessa vez trabalhando não mais como técnico de contabilidade e sim como jornalista, assumindo a função de chefe de setor de divisão e, depois, superintendente adjunto do Serviço de Comunicação da Petrobras. Quando Collor foi eleito, pediu demissão e veio para Friburgo ser diretor de jornalismo da TV Serra Mar, onde trabalhou por um ano. Bateu de frente com os maus prefeitos da região, chegando a ser ameaçado, tendo sido obrigado a se afastar.
Para sobreviver, abriu o restaurante japonês Kyori (que funcionava em uma das lojas embaixo do estádio do Friburguense), com o sócio Yoshiuke Ban. Como ele mesmo dizia: “Ensinamos o friburguense a comer de pauzinho”.
Dez anos depois, voltou ao Rio para trabalhar no Tribunal de Contas do Município, como assessor do Maurício Azêdo, então Conselheiro do TCMRJ, que desejava gente de confiança e honesta ao seu lado. Tornou-se colunista do jornal friburguense A Voz da Serra, onde, durante vários anos, produziu deliciosas crônicas sobre a cidade, o estado e o país, falando de tudo: política, futebol, samba e jazz, de que era grande entendedor, por isso mesmo integrante do Clube de Jazz.
Passou a lutar para dar um melhor destino à Associação Brasileira de Imprensa (ABI), tendo sido eleito, em maio de 2004, diretor tesoureiro da entidade. Neste mesmo ano, aceitou o desafio lançado pelos camaradas do PCB de Nova Friburgo e foi candidato à prefeitura, arrebanhando quase 8.000 votos (cerca de 7% da votação), numa das mais significativas performances obtidas por um candidato de esquerda no município, talvez a maior da história da cidade, levando-se em consideração ter sido candidatura própria, sem coligações. Dois anos depois, cumpriu de novo a tarefa de ser candidato pelo PCB, desta vez a deputado estadual, mas a saúde já debilitada não permitia mais muitas andanças.
Depois de uma longa batalha contra o câncer e os efeitos do tratamento da doença, que o deixaram bastante debilitado, em 05 de março de 2010, descansava o bravo camarada Aristélio, de quem lembraremos sempre os 58 anos ininterruptos de militância no PCB, a participação ativa nas batalhas contra a ditadura, contra as desigualdades e injustiças promovidas pelo capitalismo, assim como a autoria dos belos textos em defesa da nossa cultura, da democracia e do socialismo.
CAMARADA ARISTÉLIO, PRESENTE!
FLÁVIO ANTUNES DE MORAES
Nascido em 25 de junho de 1926, na cidade de Trajano de Moraes, Estado do Rio de Janeiro, Flávio conheceu o Partido Comunista Brasileiro no ano de 1957, época em que participou ativamente das campanhas nacionais promovidas pelo PCB, a favor da Paz Mundial e pela criação da Petrobras, a histórica campanha do “Petróleo é Nosso”.
Veio morar em Nova Friburgo no ano de 1960, abrindo pequeno comércio na Avenida Alberto Braune, nº 50. Conheceu os militantes comunistas Francisco Bravo, Costinha, Manoel Leite (Lilito) e outros, tendo atuado nos movimentos políticos promovidos pelo Partido e em defesa dos trabalhadores, como as lutas pelo 13º salário, por melhores condições de trabalho, pelo direito à previdência, dentre outras.
Com o golpe militar de 1964, perpetrado com apoio do grande empresariado brasileiro e dos latifundiários para desbaratar o forte movimento popular e as lutas dos trabalhadores, estudantes e camadas médias por reformas estruturais no Brasil, foi obrigado a sair de Friburgo, onde a direita assumiu o poder, com a ascensão de Heródoto Bento de Mello, que forçou a renúncia do prefeito Vanor Tassara Moreira. Flávio teve de se esconder para não ser preso, ficando foragido na casa de amigos, na Ladeira Boaventura, em Niterói.
Casou-se, em 1967, com Zilmeia Romani de Moraes, professora da rede estadual, com quem teve dois filhos: Aline e Mário Felipe.
Na retomada das lutas democráticas, na década de 1980, reencontrou-se com os camaradas do PCB, que, no ano de 1985, conquistada a legalidade política, organizaram a Comissão Provisória do Partido em Nova Friburgo, cuja presidência de honra foi ocupada por Chico Bravo. Flávio foi encontrado, pelos militantes do PCB, durante a campanha de filiações, na casa onde trabalhava como caseiro, no Sítio do Viaduto, em Mury, ao lado de onde, mais tarde, passaria a viver seu amigo Aristélio. Convidado a se filiar ao PCB, respondeu que já era “comunista de carteirinha” desde a década de 50!
De lá para cá, participou de todos os movimentos em que estiveram presentes os comunistas friburguenses: o apoio militante às greves dos operários têxteis, metalúrgicos, do vestuário, dos bancários e dos professores; as manifestações contra os aumentos das passagens de ônibus e contra o monopólio da FAOL; as lutas contrárias à privatização da Autarquia Municipal de Água e Esgoto; as campanhas contra a ALCA, pela reestatização da Vale, pela Petrobras 100% estatal, o plebiscito pela terra; a solidariedade internacional a Cuba Socialista e a todos os povos agredidos pelo imperialismo; as campanhas eleitorais do PCB. Hoje, morador no bairro de Theodoro da Silveira, contribui com a luta comunitária e pela preservação ambiental daquele recanto ecológico.
Nos 90 anos do Partido Comunista Brasileiro, os camaradas do PCB de Nova Friburgo sentem-se honrados em poder homenagear em vida, nos seus 85 anos de vida e 55 anos de militância comunista, um verdadeiro patrimônio das lutas populares da nossa cidade: FLÁVIO ANTUNES DE MORAES.
JOSÉ PEREIRA DA COSTA FILHO (Costinha)
A Base Francisco de Assis Bravo (PCB de Nova Friburgo) reproduz importante documento histórico, a entrevista concedida por José Pereira da Costa Filho (Costinha), fundador do PCB em Friburgo, então com 97 anos, ao jornalista e também comunista Aristélio Andrade. Costinha faleceu um ano depois desta entrevista, e Aristélio nos deixaria em março de 2010, perto de completar 76 anos.
A Base Francisco de Assis Bravo (PCB de Nova Friburgo) reproduz importante documento histórico, a entrevista concedida por José Pereira da Costa Filho (Costinha), fundador do PCB em Friburgo, então com 97 anos, ao jornalista e também comunista Aristélio Andrade. Costinha faleceu um ano depois desta entrevista, e Aristélio nos deixaria em março de 2010, perto de completar 76 anos.
A entrevista foi publicada em 17 de dezembro de 1998, no Jornal A Voz da Serra, Nova Friburgo/RJ, com o título: “Com a palavra, o camarada Costinha, com certeza o mais antigo comunista vivo do país”
Em itálico, temos o texto de Aristélio:
Numa tarde qualquer de 1922, quando atingia sua maioridade, José Pereira da Costa Filho, operário têxtil, especializado em tingimentos, acompanhando outros companheiros, entre os quais um padeiro italiano, Maradei, os operários Elpídio e Francisco Bravo, ambos da Fábrica de Rendas, um lutador de boxe conhecido como “Pantera Negra”, batizado Felisberto Carvalho, e mais outro trabalhador chamado Washington Bastos, embrenharam-se na mata fechada onde hoje se ergue a Vilage, para fundar a primeira célula do Partido Comunista de Nova Friburgo.
Para esta missão histórica, subiram a serra alguns camaradas de Niterói. Como dirigente máximo do PCB, responsável pela admissão e constituição do primeiro núcleo de comunistas friburguenses, nada mais, nada menos que um dos nove signatários da ata de fundação do Partido acontecida em 25 de março daquele mesmo ano, o jornalista e crítico literário Astrojildo Pereira, o primeiro secretário-geral do PCB.1
Assim, Costinha, como é carinhosamente chamado o nosso José Pereira da Costa Filho é, com certeza, o mais antigo comunista vivo do país. É dele que ouvimos, com todo respeito, o desabafo:
“Tanto trabalho jogado fora. Tanto esforço para politizar e conscientizar os nossos companheiros, trabalhadores como a gente. Quantas madrugadas jogadas no lixo, perdidas em reuniões! A gente sonhava com a modificação, querendo ver todo mundo amparado, com toda a organização. Este desperdício, o vazio, é só isso que eu sinto agora. Foi muita falta de competência dos camaradas, deixar todo este esforço da classe operária, do mundo todo, sumir pelo ralo. Nem os nossos inimigos esperavam o fim do sonho, assim, de mão beijada.”
Com todos os erros, com todas as culpas que se possam jogar contra Stalin, assim mesmo José Pereira da Costa Filho dá um sorriso e duvida:
“Isso não aconteceria jamais no tempo dele. Se não fosse ele o fascismo venceria a guerra. Os nazistas estariam no poder.”
O velho militante comunista, vestindo paletó e camisa de colarinho sem gravata, que está sentado à minha frente, nasceu em 1901 e ri quando lembra:
“Parece que esqueceram disso. Mas foi ele quem derrotou os alemães na Segunda Guerra Mundial. Lembra?
Neste ponto, Costinha altera a voz como se estivesse discursando:
“... de hoje em diante, o soldado russo não dará mais nenhum passo atrás. A partir deste instante acuaremos a fera no seu covil. Dito e feito.”
Pergunto se em Nova Friburgo havia muitos nazistas durante a Segunda Guerra. Ele junta seguidas vezes as pontas dos quatro dedos da mão direita contra a ponta do polegar:
“Xiii... era assim. A cidade estava cheia deles, mesmo antes da guerra, no tempo dos integralistas. Foram eles que me prenderam em 1935.”
Peço para contar. Ele não faz esforço para lembrar dos detalhes. A memória dele impressiona. Torce as mãos, ajeita uma mecha dos cabelos inteiramente brancos que estão na testa. Pergunto se foram os próprios alemães que o prenderam.
“Não. Não foram eles. Foi a polícia mesmo. Não havia o DOPS ainda. Na fábrica de rendas trabalhava um tal de Davino, que era da polícia ou trabalhava para ela. Ele vivia entre os operários, infiltrado. Foi ele e os investigadores que vieram do Rio que nos prenderam.”
Nós quem?
“Eu, o Francisco Bravo, o Baranda da Leopoldina, o Said do comércio, o Lincoln Rodrigues que era um comerciante camarada nosso, do partido, um senhor de idade que não lembro mais o nome dele … um monte de companheiros. Nos levaram para o portão da Prefeitura, onde hoje é o Centro de Arte, e ficamos presos. Depois fomos de trem para Niterói, vigiados feito bichos. Da polícia, em Niterói, fomos para a Casa de Detenção. Depois nos atravessaram de barca e fomos para a Rua da Relação. De lá para a Detenção do Rio e depois de um mês, mais ou menos, fomos soltos. O Francisco Bravo era conhecido como Pimpão. Morreu agora mesmo. Acho que não fazem dois meses.”
Costinha fala do amigo com saudades.
“Era um batalhador. Numa cidade como a nossa, onde a classe operária sempre foi despolitizada, sem consciência de classe, o Bravo conseguiu se eleger vereador. Que eu me lembre, foi o último operário que conseguiu se eleger vereador.”2
Costinha é tintureiro por profissão. Sempre trabalhou tingindo fios com corantes químicos, de alta toxicidade. Viu muitos companheiros adoecerem com as tinturas usadas na fábrica de rendas e foi ele quem começou a reivindicar a insalubridade para quem trabalhava com este tipo de material na indústria têxtil.
“A conquista da insalubridade para os tecelões que lidam com material tóxico foi a nossa maior vitória. É pouco, mas foi muito importante para os operários. Quando levantamos a questão, os patrões disseram que isso era invenção nossa, que nem na Alemanha isso existia. Perdi meu emprego por isso. Fui indenizado, mas continuamos na luta pela obtenção da insalubridade e de melhores condições de trabalho. Conseguimos que um deputado de Bom Jardim levasse nossa reivindicação ao Ministério do Trabalho e, muito tempo depois, apareceu uma comissão que constatou as péssimas condições de trabalho que existiam. Mesmo assim, passou foi tempo e nós brigando pela reivindicação. Até que ela um dia saiu. Foi uma vitória nossa e que os patrões nunca quiseram reconhecer como justa.”
Daquela reunião clandestina, feita numa mata fechada em 1922, surgiu o primeiro núcleo de trabalhadores em ideais definidos. Mas por que o movimento operário não cresceu em Nova Friburgo? Por que ele se manteve tímido?
“Por vários motivos: falta de organização, esclarecimento e vontade dos companheiros para se unirem independente da ideologia de cada um. Numa época, morava em Friburgo um companheiro advogado, o Benigno Fernandes, que se uniu aos partidos e estava disposto a organizar os operários. Depois de muitos anos, nós tentamos reunir os trabalhadores numa discussão ampla, na Campesina (a Banda centenária Campesina Friburguense). Foi um fracasso. Apareceu pouca gente. Para falar a verdade, não apareceu ninguém. Eu e o Minervino de Oliveira tentamos trazer mais gente. Assim mesmo, tiramos uma direção que acabou não funcionando. O Benigno Fernandes veio para cá para se tratar do pulmão e nunca mais saiu daqui. Acabamos elegendo-o como deputado. Ele era o nosso advogado3.”
Costinha lembra que o Benigno defendeu um operário que matou a facadas um chefão da fábrica de rendas. Foi um processo rumoroso que sacudiu a cidade. Ele tem um papel amarelo nas mãos. Vez ou outra ele procura socorro nele. Para meu espanto, lê sem óculos. Quero saber como anda a sua saúde. Pergunto por sua pressão arterial.
“Treze por oito. Gosto muito de caminhar. Até o ano passado, eu e um amigo, conversando, a gente ia daqui (da Praça do Paissandu) até o Cônego e voltava. Agora este companheiro está doente, mas, mesmo assim, sozinho, vou até o Parque São Clemente, devagarinho.”
É, com certeza, numa das menores ruas de Nova Friburgo e sem saída, que vou encontrar o Costinha. No número quatro é onde mora. Uma porta de ferro, sem portaria e dois lances de escada para atingir o apartamento dele. Chego em cima cansado. Mais cansado fico quando ele diz que, aos 97 anos, caminha por toda a cidade.
“Não bebo e nem fumo. Fui jogador de futebol por uns vinte anos. Joguei no Esperança, camisa verde e branca. É uma pena o clube ter acabado.”
Lembro que alguns esperancistas, como Laércio Ventura, me disseram que o Costinha foi craque. Deve ter sido, pois é difícil imaginar um homem daquele tamanho, baixinho, jogar durante vinte anos. Além do mais, é modesto o suficiente para saber que não precisa ficar provando que foi bom de bola. É difícil ouvir dele um autoelogio. Insisto. Com muito custo, ele entra no assunto. Jogava de quê?
“Era meia esquerda. Minha perna boa era a canhota. Quantos gols eu marquei? Sei lá. Joguei durante vinte anos. Naquele tempo a gente não se preocupava com isso. Lembro que uma vez nós estávamos perdendo para o Fluminense (time local) por dois a zero e, nos últimos três ou quatro minutos, viramos para três a dois. Eu fiz dois gols.”
Costinha é botafoguense. Em determinada época, foi até sondado para jogar no Rio, no Botafogo. Relutou em ir. Pensou bem. Futebol, na época, não dava camisa a ninguém e era amador. Ele já era casado com Dona Maria Luíza e com filhos. O casal está junto há 70 anos e da união nasceram 16 filhos. Só sete estão vivos. Muitos netos e bisnetos. Futebol, hoje, só pela TV. Sente saudades de João Saldanha, que admirava como comentarista, como homem e como comunista.
“Não conheci o João. Mas gostaria muito de apertar a mão dele. Aquilo era um homem coerente e de caráter.”
Uma das maiores alegrias de Costinha foi ter conhecido Luiz Carlos Prestes e ter falado com ele depois que retornou do exílio, com a anistia, em 1979. Henrique Cordeiro, na época trabalhando na Secretaria de Cultura de Friburgo, foi testemunha do encontro. A chegada do Prestes estava marcada para as nove horas e, às cinco, o auditório da Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia, onde Prestes falaria, já estava lotado. Henrique me disse que o Costinha ficou emocionado em ver o Cavaleiro da Esperança. Voltamos a conversar sobre o movimento operário e pergunto se ele liderou alguma greve em Nova Friburgo. Lembra com precisão espantosa.
“Em 1933, aquele mesmo grupo de camaradas, gente ligada ao PCB, liderou uma greve por uma série de reivindicações. Começou na Fábrica de Rendas Arp. A gente queria um aumento de 50% para menores e mulheres, 25% para os homens, regulamentação das férias, creche para as mulheres poderem trabalhar tendo seus filhos cuidados e alimentados e licença para as paturientes, um mês antes e dois depois do parto, para elas poderem amamentar os filhos.”
Costinha, ao contar como foi a greve, faz uma explanação de como era o ambiente no Brasil, vivendo a primeira grande crise do getulismo pós revolução paulista de 1932. Era a época do tenentismo, e os liberais lutando pela implantação de uma Assembleia Constituinte. A classe operária aspirava pelas primeiras leis que viessem a tirá-la do atraso, do trabalho mal remunerado, sem o mínimo de conforto e direitos.
“As nossas reivindicações, modestas aos olhos de hoje, eram no entanto um avanço enorme. As mulheres e as crianças eram exploradas pelos patrões. As nossas reivindicações sensibilizaram os operários das outras fábricas, e a greve por melhores condições de vida e de trabalho ganhou corpo. Para negociar pelos grevistas, elegemos um comitê de greve. Pelos patrões, veio a polícia do Rio. Uma intimidação dos patrões que acabou por afastar os nossos sindicatos, ocupados pelos pelegos, das discussões. Éramos nós, os operários, conversando com o intermediário dos patrões, a polícia. O sindicato dos têxteis, na época, era mais patronal que o próprio patrão. Só sei que, quando a tropa desfilou na praça do Paissandu, um menino assoviou para a polícia e um soldado, achando aquilo um desaforo, atirou para o chão. A bala ricocheteou e um estilhaço atingiu em cheio o peito e matou o companheiro Licínio Teixeira. Durante algum tempo, a Praça do Paissandu foi chamada de Licínio Teixeira em sua homenagem, mas aí a Marinha se meteu e a praça passou a se chamar Marcílio Dias.”4
Costinha se aposentou há muitos anos. Seu ofício de tintureiro passou para seus filhos, que estão também aposentados. Em 1964, como não podia deixar de ser, ele que dava assistência ao filho na fábrica Sinimbu, teve que sumir do mapa. Escondeu-se e, tempos depois, reapareceu. Foi intimado a comparecer na polícia e foi. Pensava que também seria preso, como foram outros militantes comunistas em Nova Friburgo, como os amigos Francisco Bravo, o “Chiquinho Pimpão” e Manuel Leite, o “Lilito”, entre outros. Já se sentia velho para participar da política, mas nunca deixou de acompanhá-la. Mesmo aos 97 anos, ele não renuncia ao direito de votar e faz uma confissão.
“Me enganei com este moço, o Fernando Henrique. Da primeira vez votei, até mesmo contra a orientação do partido. Ele se revelou o maior vendilhão que o país jamais produziu. Entregou tudo que a nação possuía com a desculpa de que é preciso privatizar. Você viu na televisão os russos catando lixo para comer? É assim que nós vamos acabar. Da segunda vez, não votei mais nele. Mas, enquanto eu estiver vivo e com forças de ir até a urna, não renunciarei jamais ao meu direito de escolher quem vai nos governar. Estou certo?”
José Pereira da Costa Filho, 97 anos, nascido em 27 de agosto de 1901, como já disse, é certamente o mais antigo membro do PCB ainda vivo. Ele entrou para o partido poucos meses depois da reunião histórica acontecida em Niterói, em 25 de março de 19225, reunindo Astrojildo Pereira, jornalista; Abílio Nequete, barbeiro; Cristiano Cordeiro, funcionário público; Hermogêneo Silva, eletricista; João da Costa Pimenta, gráfico; Joaquim Barbosa, alfaiate; José Elias da Silva, funcionário público; Luiz Peres, vassoureiro; Manuel Cedón, alfaiate, os nove fundadores do Partido Comunista, os que assinaram a ata registrada no Diário Oficial da União de 7 de abril de 1922, página 6970, sob o título das Sociedades Civis. Costinha, como é chamado carinhosamente mais pelo seu tamanho e fragilidade, viveu de perto o Levante do Forte de Copacabana de 1922, pois servia o exército na ocasião. Sofreu com a “Intentona” de 1935 e foi perseguido pelos integralistas, versão brasileira dos adeptos do fascismo e do nazismo que infestava o país e a cidade onde nasceu. Nunca cedeu à violência e nem se abateu com as perseguições de que foi vítima por defender suas convicções. Por sua profunda honestidade de propósitos, ganhou o respeito de seus contemporâneos, até mesmo dos adversários. Agora mesmo está preocupado com o destino dos portuários do país, ameaçados de perderem o meio de subsistência.
“Esse moço me enganou. Não sei para onde ele quer levar o país. Agora está perseguindo os portuários e ele não sabe que está mexendo num vespeiro, com a elite da classe trabalhadora. Isso não vai acabar bem".
Notas:
1 A respeito dessas informações, há um desencontro com relação à data precisa em que o PCB foi criado em Nova Friburgo. Segundo entrevista concedida por Francisco Bravo, outro antigo militante comunista na cidade e um dos fundadores do Partido, esta reunião da qual participou Astrojildo Pereira teria ocorrido, na verdade, em 1929 e não em 1922. Segundo o relato de Bravo, o Partido Comunista vinha tentando se organizar em Friburgo desde 1925, através dos padeiros italianos Elpídio e Maradey, ligados a Otávio Brandão e Minervino de Oliveira. Os dois reuniram trabalhadores de fábricas e de outros setores na sede da Banda de Música Campesina, onde discorreram sobre a vida na União Soviética e sobre os ideais do Partido. No entanto, somente quatro anos mais tarde, uma segunda reunião no bairro da Vilage, com a presença de Astrojildo Pereira, concretizaria a criação do PCB no município. (Nota do professor e historiador Ricardo Costa, dirigente do PCB de Nova Friburgo)
2 Francisco de Assis Bravo (1910-1998) foi uma das principais lideranças operárias de Nova Friburgo, tendo ocupado a presidência do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil durante vários anos. Foi eleito vereador pela legenda do PST (Partido Social Trabalhista) em 1962 e cassado, por pressão do Sanatório Naval de Nova Friburgo e da burguesia local (representada na figura do então vice-prefeito Heródoto Bento de Mello, responsável também pela cassação do Prefeito Vanor Tassara Moreira, amigo dos comunistas), no golpe de 1964. Quando o PCB reconquistou a legalidade em 1986, o velho comunista foi homenageado pelos jovens militantes friburguenses, com a sua condução a presidente do honra do Partido. A Base do PCB de Nova Friburgo hoje leva o seu nome. (Nota de Ricardo Costa)
3 O advogado trabalhista Benigno Fernandes foi eleito vereador com o apoio dos comunistas friburguenses, os quais, em virtude da cassação do registro do PCB pelo Governo Dutra em 1947, foram obrigados a participar das eleições municipais daquele ano (realizadas em setembro) na legenda do PSP. Benigno comprovou, assim, o seu prestígio junto ao movimento sindical de Nova Friburgo e seria voz isolada na Câmara Municipal na oposição à cassação dos direitos políticos dos comunistas e ao rompimento, por parte do governo brasileiro, das relações diplomáticas com a União Soviética. A eleição a que Costinha faz referência ocorreu no ano de 1949: o vínculo com a luta sindical garantiria ao advogado a eleição para deputado estadual, desta feita na legenda do Partido Socialista Fluminense, em chapa da qual Francisco Bravo também participou como candidato. (Nota de Ricardo Costa)
4 Mais detalhes sobre a histórica greve do operariado de Nova Friburgo, em1933, podem ser encontrados no artigo “Chico Bravo e a militância operário-comunista de Nova Friburgo”, disponível em http://www.pcbfriburgo.com/p/base-francisco-bravo.html (Nota de Ricardo Costa)
5 Sete anos depois, se considerarmos a informação dada por Francisco Bravo. Ver a primeira nota de rodapé. (RC)











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