1ª Sessão Pública de testemunhos sobre a ditadura de Nova Friburgo

A Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia, em Nova Friburgo, abrigou um evento muito especial na noite de 28 de agosto. Presidida pelo Prof. Dr. João Raimundo de Araújo, a Comissão Municipal da Verdade Chico Bravo promoveu a 1ª Sessão Pública de Testemunhos de Perseguidos Políticos no período da ditadura empresarial-militar (1964-1985) na cidade. Ivaldeck Barreto, Maria Ignez Breder e Vânia Rosangela Machado, militantes da Juventude Católica e da Ação Popular na década de 1960, expuseram detalhes de sua rica experiência de vida e de enfrentamento à ditadura para uma plateia atenta composta, em sua maioria, por jovens estudantes de escolas do ensino médio e de instituições do ensino superior de Nova Friburgo.

Seguindo o roteiro escrito por Ignez, que lia as passagens marcantes de sua vida (e por vezes se emocionava) e era complementada pelos depoimentos dos companheiros, a sessão foi extremamente esclarecedora a respeito do processo de perseguição política a que foram submetidos milhares de brasileiros que não se sujeitaram às condições impostas pelo golpe que derrubou o governo de João Goulart e, por isso, sofreram as agruras do regime ditatorial. Quando ocorreu o golpe, Ivaldeck era um jovem metalúrgico que participava dos movimentos da ala progressista da Igreja Católica, que clamavam por transformações sociais profundas no Brasil, associando-se às lutas pelas reformas de base propostas pelo governo de Jango. Ignez trabalhava na Fábrica Filó e estudava, à noite, no curso normal do Colégio Municipal Rui Barbosa, cujo diretor era Humberto El-Jaick, que foi preso e teve seu mandato de deputado federal (PTB) cassado pela ditadura. No dia do golpe em Nova Friburgo, houve resistência de setores operários e algumas fábricas chegaram a ter suas atividades paralisadas, mas o movimento não conseguiu se manter.

No início da década de 1970, Ignez já lecionava do Grupo Escola Tuffy El-Jaick, e Ivaldeck atuava no sindicato dos metalúrgicos, participando de congressos sindicais nacionais. Os dois mantiveram-se atuantes nos movimentos da Igreja até o ano de 1971, quando decidiram sair às pressas do Brasil – com a filha Débora de um ano e sete meses a tiracolo – por causa do recrudescimento da repressão. Partiram para o exílio no Chile, então governado pelo socialista Salvador Allende. Com eles foram também os companheiros José Carlos Marins e a esposa, Vânia Machado. Lá participaram ativamente dos esforços do governo da Unidade Popular de construir uma nova sociedade, em que os trabalhadores tivessem vez e voz. Com o golpe sanguinário de Pinochet – patrocinado pelo imperialismo estadunidense e pelas ditaduras do Cone Sul, que criaram a Operação Condor para reprimir e desbaratar as organizações de esquerda em todo o continente – mais uma vez foram obrigados a buscar refúgio em outro país. Enquanto Vânia conseguia retornar ao Brasil, Ignez e Ivaldeck se exilaram na França, levando consigo lembranças arrasadoras do que viram e sofreram no Chile, cujo sonho de edificação do socialismo foi destruído pelos fuzis e pela violência da extrema-direita. Somente retornaram ao Brasil após a aprovação da Lei de Anistia de 1979, que libertou presos políticos e trouxe de volta exilados, mas também “perdoou” os crimes dos torturadores e agentes da ditadura. Uma nova fase de suas vidas se iniciava, quando a ditadura brasileira enfrentava seu ocaso e era possível voltar a acreditar no sonho de construção de uma sociedade livre, verdadeiramente democrática e igualitária, sonho este que ainda está por se materializar.

Este foi o primeiro evento voltado a colher preciosas informações e depoimentos sobre o período ditatorial em Nova Friburgo e Região. A atividade contou com a presença do representante da Comissão Estadual da Verdade, Fábio Cascardo. A Comissão da Verdade Chico Bravo estará reunida no dia 05 de setembro (sexta-feira) às 18h, na sala de reuniões localizada no 3º andar da Câmara Municipal (Rua Farinha Filho, 50 – Centro de Nova Friburgo), para dar tratamento à gravação dos testemunhos e planejar as próximas atividades.




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