Três anos depois: antigas e novas tragédias

Nota política do PCB / UJC Nova Friburgo, base Francisco Bravo

O texto de um ano atrás permanece absolutamente atual. Três anos depois, o descaso para com todas as vítimas, diretas ou indiretas, daquela grande tragédia, continua inalterado.

A tardia entrega de 460 apartamentos pelo governador Sérgio Cabral ainda está muito longe de atender às necessidades da população friburguense como um todo. Inúmeras encostas seguem pondo em risco a vida de diversas famílias e a possibilidade de novas tragédias continua assombrando o dia a dia da outrora tranquila cidade serrana.

Ademais, convém lembrar que poucos dias depois da entrega das referidas casas populares, o governador decretou que os desabrigados a serem beneficiados não poderiam mais optar pelas indenizações ou compras assistidas, obrigando assim que as pessoas a serem realocadas se destinem aos apartamentos construídos (ou a serem construídos) pelo governo. Tal medida força o morador contemplado a mudar-se para um outro bairro, diferente do seu e muitas vezes bem distante do mesmo.

Em verdade, esse decreto tem como objetivo reduzir o baixo interesse que tem havido, por parte dos beneficiados, pelos tais apartamentos e, principalmente, tende a atrasar a retirada de vários moradores das áreas de risco onde vivem, uma vez que grande parte desses apartamentos ainda não foram totalmente construídos: apenas 966 casas das mais de 4.000 prometidas foram entregues, enquanto, em toda a região necessitada de casas populares, cerca de 9.394 famílias ainda vivem em áreas de risco, segundo dados do Departamento de Recursos Minerais do Estado. (Fonte: Folha de São Paulo)

Em suma, o completo descaso por parte dos governos municipal, estadual e federal (todos aliados, inclusive) completa três anos e, evidencia-se, não há pressa alguma em sanar por completo as mais básicas necessidades daqueles que, a qualquer chuva forte, podem ter suas vidas novamente atingidas.

Por fim, cabe aqui lembrar que este mesmo governador que se vangloria de entregar algumas poucas casas populares é o mesmo que neste exato momento põe sua polícia nas ruas para desapropriar brutalmente os moradores da Favela Metrô Mangueira, zona norte do RJ, com o intuito de usar o espaço para atender às "necessidades" da Copa do Mundo a ser realizada neste ano.

O PCB Friburgo se solidariza com os moradores das áreas de risco tanto da Serra quanto da favela do Metrô Mangueira: os primeiros, pelo descaso e os segundos pela ação direta, de um governo cujas prioridades passam longe do bem estar da população a qual deveriam servir. Atendem, antes de tudo, aos interesses do grande capital que os patrocina, alimenta e elege.

E para ambos os casos a solução é uma só, a mesma pela qual já clamamos há um ano em nossa nota de lembrança aos dois anos da tragédia: a mobilização popular dos trabalhadores. Que 2014 traga isso de maneira ainda mais incisiva e politizada, e que em janeiro de 2015 já estejamos caminhando em direção a uma nova realidade, menos dolorosa. Sem tragédias políticas, climáticas e sociais. Sem desmoronamentos e desapropriações.

Nota de 11 de janeiro de 2013:

"NOVA FRIBURGO DOIS ANOS DEPOIS DA TRAGÉDIA: O DESCASO CONTINUA

Passados dois anos da maior tragédia climática da história do país, Nova Friburgo, palco principal do drama, segue ainda devastada. Se, por um lado, algumas das feridas abertas no triste 12 de janeiro de 2011 podem ser fechadas, outras tantas ainda sangram no cotidiano da cidade serrana.

Um primeiro problema se observa no descaso das autoridades (in)competentes com alguns dos lugares mais atingidos pelas chuvas e deslizamentos. Enquanto no centro da cidade as obras de revitalização e contenção de encostas devolvem, ainda que lentamente, a beleza característica do município e prometem garantir a segurança de quem ali vive ou transita, nos bairros periféricos – os mais violentados pela tragédia – não se constata o mesmo empenho no reestabelecimento dos mesmos: encostas continuam ameaçadoras, ruas continuam esburacadas, casas continuam condenadas e a população continua em risco.

Ao passo em que o Centro é “maquiado”, tentando dar aos friburguenses uma falsa sensação de segurança e tranquilidade, a classe trabalhadora, maior vítima da tragédia e do descaso político, segue vendo suas comunidades abandonadas pelo poder público. Sem a entrega das casas populares e, quando muito, recebendo o insuficiente Aluguel Social, inúmeras famílias continuam sem ter onde morar e outras tantas, sem opção, arriscam-se vivendo amedrontadas pelas chuvas em áreas de perigo iminente.

Os milhões de reais que chegaram à cidade, vindos dos governos federal e estadual, encheram os bolsos das empreiteiras e de alguns poucos políticos, mas não ergueram uma única casa para uma única família necessitada. Desamparados, carentes já há dois anos, os friburguenses só veem o nome de sua cidade em vergonhosas páginas policias onde são denunciadas as irregularidades e os desvios de verbas que deveriam atender à classe trabalhadora mas acabam por tomar destinos corruptos pelas mãos daqueles que deveriam servir ao povo. Além da corrupção, décadas de cumplicidade do poder público com os interesses da especulação imobiliária e da ocupação desordenada do solo trouxeram lucros para poucos e desgraça para muitos. Violentados pela força da natureza e pela ganância dos capitalistas e de “autoridades”, os desabrigados vivem uma rotina de desespero e desesperança.

Entretanto, se passado e presente, terríveis, apontam para um futuro sofrido, nós, trabalhadores, revoltados com o descaso do poder público, temos o dever de nos levantarmos em favor de todos os atingidos pelas tragédias passadas! Devemos exigir dignidade aos que estão vivos e seguem sofrendo no dia-a-dia, todos os dias, a dor de suas perdas. Somente um movimento amplo e a união da sociedade civil organizada em torno desta causa podem decretar e direcionar os rumos da cidade para o que deve ser um futuro digno e seguro a todos os que sofreram e ainda sofrem por causa das chuvas.

É hora de as vítimas serem tratadas como PRIORIDADE. CHEGA de descaso! Exigimos a construção das CASAS e uma POLÍTICA HABITACIONAL que atenda as reais necessidades da população! Exigimos a contenção de TODA e QUALQUER encosta que ofereça risco ao povo de Nova Friburgo! Exigimos SEGURANÇA e medidas de PREVENÇÃO diante de novas enchentes e tempestades! Exigimos CONDIÇÕES DIGNAS DE VIDA para a classe trabalhadora, para que não haja mais lamentos, tristezas e perdas no futuro.

CHEGA DE ENROLAÇÃO! QUEREMOS SOLUÇÃO!

DIGNIDADE, TRABALHO E MORADIA!"

0 comentários:

Postar um comentário

 
PCB / UJC Nova Friburgo :: Base Francisco Bravo | Permitida a reprodução dos textos desde que citada a fonte original e os autores.