Pedro Monnerat
Professor e militante da Base Francisco Bravo - PCB/UJC Nova Friburgo
Essa manifestação xenofóbica e imbecil contra os médicos cubanos que chegaram é um perfeito retrado do individualismo pequeno-burguês das nossas classes médias/altas. As vaias dirigidas aos nossos visitantes não eram outra coisa senão o uivo dos setores mais atrasados e conservadores saindo pela boca de quem tem um diploma de medicina, mas não compreende a verdadeira função deste.
A revolta besta contrasta a pouca inteligência dos revoltados com sua dantesca falta de educação e objetividade. Querem ser contra a vinda dos cubanos, que sejam! Mas não insultem a inteligência e a fama de hospitaleiro do nosso povo: qual o propósito de vaiar pessoas que, vindas de onde que que venham, não tem outro objetivo senão contribuir com as deficiências imediatas do nosso sistema de saúde? Como respeitar a posição de quem se põe a ofender e detratar homens e mulheres cuja função é atender as necessidades urgentes da população carente brasileira? Até os mais fervorosos ultranacionalistas deveriam ver nessa chegada um aspecto positivo: os médicos não estão vindo tratar outros cubanos, e sim o povo brasileiro! Inisisto: não há problema em ser contra a vinda destes, mas as pessoas merecem um mínimo de respeito, o que inclui não ser vaiado ou chamado de "escravo", terminologia esta que expõe os resquícios escravocratas da nossa Casa Grande.
A hostilidade dos que vaiam e rotulam os cubanos evidencia o já citado individualismo pequeno-burguês: médicos, via de regra bem nascidos e tão brancos quanto seus caros jalecos, vêem num problema social - a precária saúde pública brasileira que demanda, de imediato, ajuda externa -, uma questão pessoal e, com isso, põe-se a preterir de forma agressiva os seres humanos que vieram trazer a referida ajuda. O outro lado da moeda não poderia ser mais emblemático: um dos cubanos hostilizados, Juan Delgado, 49 anos, afirma que não entende essa recepção difamatória, pois "vão onde os brasileiros não vão" e que só serão "escravos da saúde, dos pacientes doentes, de quem estaremos ao lado todo o tempo necessário", ou seja, fez exatamente o caminho inverso dos "doutores" brasileiros. Ao invés de retaliar as ofensas a sua pessoa, deixou de lado o aspecto individual e reafirmou que sua presença tem como causa um problema social brasileiro, que é o pouco ou nenhum atendimento médico em regiões inóspitas do país.
É, ainda, incrível a simbologia desses acontecimentos para evidenciar os embates ideológicos que permeiam nosso cotidiano e insistem em gritar sua existência, mesmo quando tenta-se decretar o fim dos conflitos de classe ou da própria História em si. Haveria tanta gritaria por parte das aves de rapina fascistas se os médicos fossem norte americanos caucasianos com camisas de seda da Lacoste e perfumados com Chanel nº5? Não! A questão vai muito além da simples chegada de médicos que, possivelmente (ao menos na cabeça doentia da classe média/alta revoltada), tomaria seus lugares ou tirar-lhe-ia oportunidades, tudo isso é, em verdade, o simples engodo pelo qual a direita ideológica se apossa das mentes vazias do "doutores" tupiniquins.
O descordo existe pelo fato de estarmos lidando com criaturas que vem de uma mística ilha caribenha onde a saúde não é mercadoria e a desigualdade é combatida efetivamente, uma ilha onde, com inúmeros erros e acertos, implementa-se uma alternativa à lógica mesquinha e avassaladora do capital. Essa ilhota, pequena e aparentemente frágil, nos idos de 1959 já se impusera contra os interesses imperialistas dos EUA e ainda hoje, com todas as dificuldades e embargos que sofre, mantém-se firme no campo do socialismo e da ajuda internacional.
Justamente nesses atributos reside a intolerância da nossa direita em receber os "escravos" cubanos. Assim como no plano internacional, em terras brasileiras tudo o que se refere a Cuba deve ser combatido e depreciado, posto que, conforme já dissera Fidel, o capitalismo precisa "combater o exemplo". Os sucessos da Revolução Cubana não podem ser ressaltados e o envio de milhares de médicos para os mais diferentes locais do globo deve ser combatido, posto que evidenciam aquilo que sobra na ilha e falta nos países capitalistas: respeito e preservação à vida, além da solidariedade e ajuda entre os povos. Ou seja, as visitas cubanas trazem consigo a possibilidade de mostrar o quanto é concreta e bem sucedida uma sociedade em que todos tem acesso àquilo que poucos podem manter onde predomina o livre mercado: saúde e, consequentemente, vida.
Os médicos brasileiros precisam entender que seu diploma não implica numa simples profissão com a qual ganhará (e muito bem) a vida, este só tem utilidade efetiva se for posto à serviço da coletividade, de maneira indiscriminada e sem preconceitos. Infelizmente, neste país, exercer medicina é, mais do que uma função social, um status e, tenho certeza, estes que vaiam os irmãos cubanos não tem outro desejo senão manter nas mãos da elite não apenas o seu diploma como também o seu atendimento especializado. O pedantismo aristocrático de "ser doutor" vê na presença dos médicos de pátria socialista algo que seu individualismo não permite compreender: o direito à medicina e à vida pertencem a todos, inclusive àqueles que moram nos áridos sertões nordestinos, onde os olhos azuis dos Rockfeller brasileiros não detectam existência de humanidade nos homo sapiens que lá habitam.
Escravos somos nós: da ignorância e do capital.
Que venham os cubanos, e que com eles não chegue só a medicina, mas também a compreensão de que um outro mundo é possível e existe logo ali numa fantáscia ilhota que não se curva às bestialidade do capitalismo genocida.
Viva o povo cubano! É uma honra tê-los conosco.






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