O cinema bem falado

 Alex Fonte
Professor de História e militante da Base Francisco Bravo - PCB/UJC Nova Friburgo

Existem sérias restrições a Caetano Veloso, mas admitir que o santo-amarense é de fato uma autoridade artística no Brasil constitui, no mínimo, ser coerente. Sempre mostrou talento musical e verve camaleônica, mantendo uma subjetividade ímpar (talvez seja inveja, as restrições). Em sua incursão ao cinema, Caetano faz o “seu” cinema, falado, muito falado – nas palavras de Augusto de Campos, excessivamente falado – entretanto, bem falado. O filme em questão é “O Cinema Falado” (1986), que pode ser considerado uma verdadeira tournée filosófica sobre literatura, dança, artes plásticas e música. As imagens que se formam em planos relativamente simples levam a testemunha a tirar conclusões pluralizadas sobre aspectos que são fundamentalmente singulares dessas manifestações intelectuais, que, por mais que tenham a sua face popular, depende de uma razão cerebral, pessoal e intransferível para acontecer. O fazer ver, ouvir e sentir aflui perfeitamente, e não são raros os momentos de razão pura, estados de frenesi artístico-sócio-intelectual sem apelo a compêndios. O decorrer da trama glauberiana (cinema que se vê, se ouve e se sente) leva também a momentos de peraí, tem algo de errado em meus conceitos, ou me localizo muito mal dentre eles; ele faz o cinema gustativo, e não de consumo.

“O Cinema Falado” tem virtudes essenciais para o audiovisual, com imagens de sons e sons de ideias misturados com a interpretação-anunciação quase empírica dessas ideias que se perderiam em qualquer adaptação blasé, em pseudos filmes cults. O baiano pareceu se preocupar com o sentido filosófico mais que a fiel colocação se signos pop’s, sem adequada concepção racional do está sendo dito e feito.

As viagens sobre a gastrite midiática, que emperravam o cinema há dez, vinte, trinta anos atrás, e transformava a tv em circo de horrores, soam agora legítimas e um mal atemporal. O cinema nacional de hoje (leia-se: Cláudio Assis, Sérgio Bianchi, Marcelo Gomes) consegue, pelo menos um pouco, respirar cinema verdade e não aquela xaropada televisiva. Muitos autores conseguem fazer seus filmes com o que têm disponível financeiramente e a obra sai brilhantemente artística. O cinema de Caetano tem alma, corpo e presença de um filme de cinema verdadeiro. A história que ali se conta é de um cara preocupado em se exprimir de uma maneira inusitada no diz respeito ao clássico. O cara é o próprio diretor. Ele fez o que todos realizadores deveriam fazer (até mesmo gostariam): fazer o que acha que tem que ser feito.

A película também pode ser encarada como uma homenagem à linguagem; às formas de se interagir artisticamente com o necessitado público. A filosofia de Heidegger; de Thomas Mann, como disse Caetano, um breve contra o contexto erótico-heterossexual. Quando cita que o homem decide se casar, não necessariamente por causa da mulher, leva a uma ideia de egocentrismo superior a qualquer tendência especial de repugnância ao dual. É claro, se pensarmos que o prazer é, antes de tudo nosso, e não de quem nos proporciona. O prazer dele é dele, e só me interessa ao tornar-se meu de alguma forma.

Como foi citado no início, existem muitas restrições ao Sr. Caetano Veloso, e as restrições se estendem aos fãs – porque tão apaixonados. Mas a simpatia por um trabalho original e sem medo é inevitável; um trabalho que tem um poder de influenciar que é devastador.

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