As manifestações sucessivas que acontecem em São Paulo em protesto ao reajuste no preço da passagem do transporte municipal, levando a tarifa a R$ 3,20, merecem um olhar mais profundo por se tratar de um legítimo movimento que desperta acaloradas opiniões.
Sou da opinião de que o transporte público – assim como a saúde, a educação etc – deve ser garantido pelas Prefeituras, pelos governos. Todavia, não sou ingênuo ao ponto de não reconhecer que os meandros do capitalismo contemporâneo enxergam lucro em qualquer setor e não abririam mão de parte tão significativa.
Acompanhei – devido ao meu inexplicável masoquismo – as manifestações de ontem (dia 13/06) a partir das 18:30h. nos telejornais do horário; leia-se Datena, Band, e Marcelo Rezende, Record. Um show de horrores e parcialidades que devem fazer mal a qualquer estudante de primeiro período de jornalismo. No entanto, algo estava diferente.
Quando das primeiras passeatas em São Paulo, a grande e esmagadora parcela da mídia hegemônica emitiu parecer contrário à manifestação, como era de se esperar. Tratava-se de baderneiros, delinquentes juvenis, filhos da classe média, revoltados sem causa. Foram acusados de mesquinharia, afinal, quem considera R$ 0,20 uma quantia significativa? O nobre apresentador da Band (nunca é demais lembrar que o sujeito emite opiniões das mais esdrúxulas e já foi condenado a pagar significativa quantia por ter concluído que a violência urbana é culpa dos ateus), num primeiro momento, se colocou a favor do protesto, desde que na calçada, sem atrapalhar o trânsito, sem desordem. Ora, trata-se do “morde e assopra”. Pergunto: que sentido há em alguma manifestação que não é visível aos olhos governamentais? Isso seria, no máximo, um inconformismo solitário, não um protesto, uma manifestação. Para Datena, o transporte é sim péssimo e caro, mas impedir o direito de ir e vir das pessoas é demais. Outra pergunta: R$ 3,20 não impedem ainda mais o direito constitucional de ir e vir de grande parcela da população trabalhadora de São Paulo?
Ontem, talvez vacinado por algum alerta divino, Datena se posicionou totalmente favorável ao protesto. Com helicópteros, links do meio da passeata, o notável defensor das causas mais retrógradas da sociedade conservadora do país destoou e passou a louvar o protesto pacífico, o apoio à causa, desde que sem baderna. Lembrou, para comparar, das Diretas Já! e do Fora Collor! Na Record, Rezende reclamou da truculência da polícia militar de São Paulo...
A súbita mudança fez com o programa passasse de policialesco trágico à comédia pastelão. Acompanhando a linha, a Folha de São Paulo que, um dia antes também taxava a manifestação de baderna e publicava Editorial raivoso, também mudou de linha ao descobrir que repórteres do grupo haviam sido presos. Não dava mais para pedir cacetada da polícia nos manifestantes.
A cereja do bolo veio com a mídia internacional. O jornal El Pais, noticiou a manifestação paulista dizendo que os “protestos são alarme num país em que o povo não vai às ruas" e que “as manifestações estão criando um alarme especial. Nem mesmo diante dos grandes escândalos de corrupção política o povo nunca saiu às ruas”. Complementa com: “Os preços dos transportes públicos no Brasil são muito altos em relação ao salário mínimo dos trabalhadores”.
As manifestações públicas em São Paulo e em todo país são, finalmente, a necessária e imprescindível tomada de consciência. Que se multipliquem os protestos, sejam por tarifas abusivas, sejam por corrupções generalizadas. Somente a luta muda a vida e qualquer um, incluindo o Datena e o Rezende, sabem disso.
Luiz Fernando Nunes
Os R$ 0,20 da discórdia (ou Finalmente de pé).
●
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Procurar no site
Categorias
- Coletivo Ana Montenegro (2)
- Cultura (32)
- Formação (41)
- Juventude (4)
- Nova Friburgo (5)
- Política (109)






0 comentários:
Postar um comentário