Luta de Classes no cinema: "Estado de Sítio"

ESTADO DE SÍTIO,  de Constantin Costa-Gavras

Alex Fonte 
Professor de História e militante da Base Francisco Bravo / PCB Nova Friburgo

A participação dos EUA nas ditaduras na América do Sul é inquestionável do ponto de vista histórico. O que resta é analisar as formas de inserção nas investidas ideológicas dos norte-americanos naquele momento e contexto, e em quais países seus interesses econômicos corriam mais riscos. Nesse quadro, vários “escritórios” foram sendo montados, cada um para cada setor específico, por exemplo: para economia, Fundo Monetário Internacional (que existe desde de 1944, mas foi primordial para a asfixia econômica de vários países subdesenvolvidos); para a política, Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, sigla em inglês USAID, fundada em 1961 pelo presidente Jonh Kennedy. No interior da USAID foi criado um programa para dar inteligência organizativa e de ação aos agentes repressivos, à polícia. Era o Programa de Segurança Pública. Este órgão servia para munir de inteligência as polícias dos países sob domínio político e econômico dos EUA. Ou seja, se as forças da repressão já sabiam coagir, prender e torturar graças a lógica imanente da dominação burguesa, faltava método de averiguação e a inteligência norte-americana era essencial para obtenção de êxito em missões de seqüestro de militantes de esquerda. 

Para a América Latina foi enviado Daniel Mitrione, que foi o responsável por ensinar aos comandos os preceitos da inteligência de ação anti-subversão, Não ensinava apenas a prender sem que a opinião pública ficasse contra o regime, mas a identificar de maneira eficaz os líderes da militância de esquerda e captura-los com o máximo de competência. Dan, como era conhecido, morou de 1960 a 1967 no Brasil, em Belo Horizonte, onde foi instrutor da polícia militar mineira. Em 1965 esteve na República Dominicana, onde participou da intervenção americana naquele país. Saiu do Brasil e voltou para os EUA, onde demonstrou os avanços de suas técnicas de tortura, que dava choque em pessoas sem deixar marcas. Lá, lecionou para funcionários da USAID. Depois da temporada americana, foi enviado para Montevidéu, onde teria a mesma missão que cumpriu no Brasil. 

Em agosto de 1970, os Tupamaros capturaram Dan e outros asseclas da ditadura uruguaia, um brasileiro e um uruguaio. Após algumas tentativas de negociação com a ditadura, e da insistência dela em não libertar os militantes que faziam parte da troca do resgate de Dan e dos outros, foi dado o ultimato: se em 24 horas a ditadura não cedesse às reivindicações do grupo, Dan seria executado. Nem Uruguai e menos ainda os EUA se importaram muito. Daniel Mitrione foi justiçado pelo Grupo Tupamaro. Após algumas reflexões, ficou claro que ele representava mais uma ameaça ao regime e aos americanos, a “queima de arquivo” foi pela mão esquerda e não direita. 

No auge de nossa ditadura, a tupiniquim, a notícia da morte de Dan teve que ser manipulada, e, em Belo Horizonte, o cidadão americano que ensinou sua polícia a reprimir com inteligência, virou nome de rua. Com a redemocratização, a rua foi rebatizada por José Carlos da Matta Machado, militante de esquerda assassinado pela ditadura. A possibilidade da morte de José ter sido obra dos ensinamentos de Dan é bem grande. 

Essa história virou filme. Estado de Sítio, de Constantin Costa-Gavras. O filme é exatamente a história descrita. Costa-Gavras é um cineasta que coloca seu cinema a serviço do entendimento da realidade e da tomada de posição. Não simples paisagens, e sim imagens embebidas de possibilidades. O filme é o retrato fiel da captura e execução de Dan Mitrione, que no filme recebe o nome de Philip Santore. Aliás, a única ficção do filme é os nomes dos personagens reais. A atenção deve estar nas conversas tidas entre os militantes e Dan, digo, Santore, onde ficam claras as intenções e intervenções dos americanos nas ditaduras na América Latina. Um filme feito quase no calor dos acontecimentos, produzido em 1972, e que merece figurar na lista de documentos indispensáveis para o conhecimento da luta de classes na nuestra América. 

HUGGINS, Martha. Polícia e política: relações Estados Unidos-América Latina. São Paulo: Cortez, 1998 
BANDEIRA, L.A. Moniz. Presença dos Estados Unidos no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978 
MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em Guarda Contra o Perigo Vermelho"; o anticomunismo no Brasil

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