Jameson é hoje considerado, nos meios acadêmicos norte-americanos, o teórico marxista mais importante desde a segunda guerra. Marxism and Form (1971), The Prison House of Language (1972) e O Inconsciente Político (1982), seus primeiros livros, tornaram-se clássicos da crítica literária e rapidamente ganharam status de livro texto em sala de aula das universidades americanas. Não só isto, mas também alguma coisa de cult ronda tanto a figura de Jameson quanto o sucesso de sua já extensa obra, lembrando um pouco o tipo de prestigio geracional de Susan Sontag, a musa do debate teórico da década de 60 nos Estados Unidos. Estranhamente, esse novo cult pós-moderno defende nada menos do que o vigor e a atualidade do pensamento teórico marxista neste momento de guerra fria contra Marx, análises ideologizantes e até da própria noção de História.
A posição de Jameson, no USA, é especial e interessante, e revela evidentes afinidades com as políticas contraculturais dos 60, às quais dedica boa parte de seu trabalho ainda que não se esqueça de ressalvar seu status “excepcional” em relação à políticas passadas e futuras. A proposta provocativa que sugere em favor de uma “luta por posições interpretativas radicais” mostra, entretanto, uma guinada sintomática em relação ao clássico ensaio Contra a Interpretação de Sontag, que defendia, de forma apaixonada e não menos radical, o fim da interpretação, com a bandeira: “no lugar de uma hermenêutica, precisamos de uma erótica da arte”.
Jameson, por caminhos bem diferentes daqueles do pensamento americano “revolucionário”, vai buscar o elo de continuidade e as leis que regem o destino das ruínas culturais e intelectuais sobreviventes da implosão da crise social dos anos 60.
O Inconsciente Político é, neste sentido, uma primeira tentativa de fôlego para introduzir o marxismo althusseriano na área da critica da cultura dos anos 80 e um projeto, igualmente ambicioso, de absorver, através de um “marxismo expandido”, os programas rivais de pensadores como Derrida, Foucault e Deleuze. Mostrando uma habilidade especial de problematizar os escritos de Marx, procura resolver o “problema Stalin” e oferecer um modelo que permita ao marxismo contemporâneo competir em igualdade de condições com a explosão teórica promovida pelos atuais movimentos do pensamento europeu e, particularmente, pelo pós-estruturalismo francês.
Escrito num estilo argumentativo compacto e numa prosa voluntariamente opaca, o livro reflete uma maneira particular de pensar, um modo essencialmente dialético de perceber a equação cultura-sociedade-história. Estilo que o autor define como “choque dialético”, aquele que ainda que pagando o preço de uma inteligibilidade densa, “faz o leitor ouvir o ruído da mudança de marcha da engrenagem da história”. Na realidade, a originalidade do pensamento de Jameson não é tanto em relação à novas ideias quanto a originalidade-da-síntese, um feito do qual qualquer marxista convicto pode se orgulhar. Na leitura de O Inconsciente Político, é fascinante observar o manejo quase pirotécnico dos sistemas teóricos de pensadores como Freud, Greimas, Northrop Frye, Hans-Georg Gadamer ou Levi-Strauss.
Há, sem dúvida, alguma coisa de engenharia na crítica literária de Jameson. Associando-se às forças do marxismo contemporâneo que repudiam o estalinismo e o comunismo soviético, Jameson constrói seu modelo teórico a partir da análise althusseriana da idéia de causalidade implícita nas articulações dos vários níveis e formas de relação entre base e superestrutura. Ainda influenciado por Althusser, assimila o conceito de mediação ao de causalidade expressiva no sentido hegeliano, o que permite estabelecer identidades simbólicas entre esses vários níveis, como um processo no qual cada nível se desdobra no próximo, perdendo sua autonomia constitutiva e passando a funcionar como expressão de homologias. O resultado desta sutilização da visão marxista de funcionalidade estrutural da cultura é o entendimento da cultura como sendo apenas sublinhada pelos níveis políticos, econômicos, jurídicos etc.
Por outro lado, seu trabalho baseia-se num exercício continuo de historicizar todo e qualquer gesto interpretativo.
A noção de historização em Jameson, entretanto, não se refere ao estudo da natureza das estruturas “objetivas” de um determinado texto literário, mas à análise das categorias ou códigos interpretativos por meio dos quais lemos o texto literário. Seu interesse é, portanto, menos o texto do que a própria dinâmica do ato da interpretação. É o que Jameson define como metacomentário. Assim, na realidade, estaríamos diante de uma forma de leitura essencialmente alegórica, que consiste em reinscrever um determinado texto em um código interpretativo especifico, promovendo a reavaliação histórica e dialética de métodos conflitantes. A justaposição dessa estratégia de leitura a um ideal propriamente marxista de compreensão revela as maneiras “locais” pelas quais diferentes tendências constroem seus objetos e reinsere o marxismo competitivamente no mercado intelectual contemporâneo.
O marxismo hoje, para Jameson, não seria apenas uma alternativa metodológica a mais, mas funcionaria como um tipo de “horizonte intranscendível” para operações críticas aparentemente antagônicas, atribuindo-lhes validade setorial e identificando sua consonância com a lógica de uma vida social fragmentada , com as peculiaridades estruturais da sociedade de consumo, com os subssistemas de uma superestrutura cultural cada vez mais complexa.
Ao afirmar que “a interpretação não é um ato isolado, mas ocorre dentro de um campo no qual diversas opções interpretativas entram em conflito de maneira explicita ou implícita”, Jameson afirma também que nenhuma interpretação pode ser efetivamente desqualificada por si mesma. Assim, reúne diferentes correntes de pensamento no plano do metacomentário, onde as partes e dissensões transformam-se num inesperado movimento do todo, que é a História. Esta manobra coloca, num plano “mais alto”, a discussão do caráter ahistórico de certos modelos teóricos que recuperam sua inteligibilidade ao serem reintegrados na história social da cultura como um todo.
Nessa mesma pista, Jameson enfrenta os pós-estrutralistas – anti-hegelianos por excelência – e a acirrada polêmica sobre novos conceitos como o “sujeito descentrado” e o “fluxo esquizofrênico” que, igualmente historicizados, passam a ser compreendidos como “pressentimentos reificados de um novo e utópico sujeito coletivo”.
Jameson, definitivamente, procura não entrar em análises de valor ou mesmo em nenhum patrulhamento ideológico sobre o caráter politicamente conservador ou progressista das tendências estéticas e intelectuais contemporâneas. Ao contrário, promove a suspensão dialética de todos os dualismos “éticos” e constrói um tipo de universo intelectual no qual não se é mais obrigado a arbitrar imediatamente entre um ou outro principio metodológico. Segundo ele mesmo afirma, “gostando ou não, estamos todos envolvidos por um Zeitgeist pós-contemporâneo que o pensamento pós-estruturalista e a estética pós-moderna refletem de maneira objetiva”.
Esta posição, no clima ideológico do “pluralismo” americano contemporâneo, não deixa de ser problemática. Já é até motivo de piada, a obsessão, nos Estados Unidos, com o que é e o que não é “politicamente correto”. Nesse clima, uma bombástica resenha, na época do lançamento do Inconsciente Político, acusa-o severamente de ter se valido da idéia do marxismo como o “horizonte da interpretação” para sansionar práticas interpretativas liberais, deixando “tudo como está”. O pseudomarxismo de Jameson seria apenas mais uma repetição do modelo típico de “liberdade” política e intelectual que se reflete tanto entre os intelectuais americanos quanto em suas instituições capitalistas. Ainda que a acusação tenha uma ponta de verdade, a operação política de Jameson, que poderia ser chamada de pós-liberal, advoga em favor da coexistência, no mercado acadêmico, de métodos e interpretações plurais sem, entretanto, abrir mão da necessidade de se considerar também o marxismo em sua pluralidade de discursos, métodos e práticas.
Provavelmente, a distinção que insiste em fazer entre a ideologia marxista e a ciência marxista, presente em quase todos os seus trabalhos, é que na verdade irrita seus adversários ortodoxos e, de certa forma, promove seu sucesso entre os não-marxistas. Entretanto, a própria “prática teórica” de Jameson tem tons de militância política. Em vários momentos, poderia lembrar uma calorosa campanha pedagógica pró-legitimação dos discursos socialistas no pós-modernismo norte-americano e uma missão explicita de dar continuidade ao compromisso teórico marxista de responder à questões que determinadas conjunturas históricas colocam. Com o mesmo empenho com que os marxistas, na década de 1930, enfrentaram o problema das classes operárias que não se revoltaram no sentido em que Marx previra ou, pouco mais tarde, no pós-guerra, a necessidade de entender o impacto da cultura de massa, Jameson pretende enfrentar, agora, o capitalismo tardio e sua inesperada estrutura de relações entre as classes. Enfrentar ainda uma “cultura” que se torna “produto” de fato e de direito, onde se consome, inclusive, o próprio consumo de um processo transparente de mercantilizacão. Sem dúvida, questões que trazem sérios problemas para a concepção marxista tradicional de lutas de classe e suas expectativas de revolução.
Na opinião de Jameson, há algumas razões que explicam porque o marxismo demorou tanto para responder ao desafio contemporâneo. Entre elas, estão a triste receita zhdanovita para as artes, o fascínio pelos modernismos e pelas “revoluções” na forma e na linguagem e, principalmente, o momento “desacumulativo” de uma nova ordem mundial, ao qual os paradigmas marxistas só se aplicam de maneira imperfeita.
O sofisticado trabalho teórico de Jameson vai, neste sentido, de maneira quase heróica, tentar pensar o presente historicamente numa era que esqueceu como pensar historicamente ou que “reprime” e diversifica seus impulsos históricos. É o bastante para que o lançamento de O Inconsciente Político, seu primeiro livro em tradução para o português, receba calorosas boas-vindas.
Heloísa Buarque de Hollanda
O Inconsciente Político de Jameson
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